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16.2.10

a espera

tem esses dias em que se acorda com uma vontade louca de fazer qualquer coisa que passar pela cabeça. sorrir para alguém especial, ou para qualquer um, beijar um poste, pular amarelinha na calçada, dar piruetas na faixa de segurança, cantar desafinadamente bem pelas ruas, se libertar. outros em que parecem não existir atitudes boas o suficiente e o melhor que se faz é observar.

me divido em momentos muito bons ou muito ruins e por mais que aparentemente esteja tudo certo, sinto um tumulto insuportável por dentro. essas coisas ruins que dão vontade de jogar tudo pro alto e começar de novo.

o que fazer com ansiedade e angústia acumuladas? não sei por onde começar as mudanças num momento que me vejo tão preso e com movimentos restritos. a minha única opção realmente é confiar na maior das incertezas, o tempo.

lidar com o que não se tem, ou com meus anseios, é muito difícil, é uma guerra sem inimigos, onde a vitória parece não se materializar. as estratégias são invisíveis e não existe nada palpável a que se apegar. me resta apostar e esperar, como numa corrida de cavalos onde a minha parte já foi feita e agora está na mão de outro fazer o que é preciso para alcançar meus objetivos.

me distraio com outros detalhes e deixo a cena principal acontecendo, às vezes acompanho, às vezes não. diálogos vazios e encenação não fazem meu estilo, sou intenso e sensível demais para interagir com o que não me diz respeito, nem sempre sentar e assistir é a pior alternativa. eu só quero que toda essa espera me traga algo de positivo, e enquanto isso eu me imagino dando piruetas pela rua, sorrio por dentro e faço cara de quem presta atenção e está presente, mas no fundo estou com o mudo e o "forward" ligados, seja o que o tempo quiser.

16.1.10

mosaico

é como se eu estivesse colando pequenos pedaços de azulejos num poço muito profundo e produzindo uma obra de arte invisível, onde um mundo de alegrias se forma abaixo dos meus olhos mas eu não posso participar. fico ali e sigo colando cores e estampas no concreto, esperando que o resultado fique bom, mesmo que ninguém perceba, eu sei que é através do meu esforço que construo esse mundo. obra prima.

nem sempre os momentos são os melhores e às vezes penso que todo esse esforço é em vão! de que adianta pensar na obra pronta se ainda faltam tantos espaços a serem preenchidos? será que está longe o momento de olhar para minha parede e perceber que o resultado já é satisfatório o suficiente para me sentir confortável com todo esse conjunto de incertezas que o processo produtivo envolve?

me sinto criança, frágil e bobo, por viver sempre esperando pelo momento de acordar e continuar minha colagem de fragmentos, meu jogo inacabado, minha re(i)novação. têm esses momentos quando me dou conta de que sigo pensando na vida como se fosse uma grande obra de arte e não entendo se isso é bom ou ruim. sensibilidade é necessária para criar e experimentar, mas torna também algumas situações complicadas de processar. a vida pode ser muito mais dura para os sensíveis e cada vez mais me vejo enfrentando a fragilidade do meu ser e aprendendo com ela.

quando me pego olhando muito tempo para alguma situação cotidiana e me divertindo com as possibilidades que cada um destes momentos tem, como num filme com múltiplas continuações, ou quando observo detalhes de uma folha seca qualquer, com algumas partes faltando e marcas pela sua extensão e penso nos lugares por onde ela esteve, voando, levada com o vento e posso sentir no meu rosto a brisa do que imagino ser uma folha, leve o suficiente para ser levado ao bel prazer do vento, como uma pena recém caída que simplesmente vai e gira e desce e sobe. quando sinto isso sei que minha obra de arte está no caminho certo. mesmo que alguns dos pedaços deste grande mosaico estejam desalinhados agora, depois de rejuntados farão parte de um todo bem composto e bonito de se ver, com suas imperfeições todas juntas formando um emaranhado de histórias, cada pedacinho com um significado, símbolos de existir e da existência. da minha existência.