30.3.09

dual core, please

o cérebro humano pode ser como um computador sem processador dual core, alías, eu não fiz nenhuma das cirurgias malucas de colocar dois corações, muito menos fui previlegiado de nascer com dois núcleos de processamento. então o meu pobre cérebro certamente nunca será um dual core. existem informações que demoram muito pra serem processadas e mesmo o tempo parece não dar conta de filtrar apenas o útil e mandar o spam embora.

logo eu que não tenho paciência com máquinas vou ter que me acostumar com o tempo do meu próprio cérebro, lento, diferente do esperado, sem possibilidade alguma de formatação, desfragmentação ou mesmo uma simples limpeza no hd. a memória até que funciona bem. mas o problema é no processamento e na assimilação de informações novas. 

preciso dar um tempo pra mim, pras tarefas de segundo plano. fechar os programas e reiniciar o sistema. vou dormir um dia inteiro e cruzar os dedos pra que as soluções fiquem mais claras e que eu volte a ter um ritmo apenas.

vacas

assistir televisão pode te fazer ter idéais absurdas sobre a realidade. na semana passada eu assistia a algum programa na tevê em que uma médica especialista em estética facial ensinava alguns exercícios de rotina para os músculos da face que normalmente por falta de uso começam a apresentar os primeiros sinais do passar dos anos quando nos vemos no espelho. a doutora mencionou também que "muitas pessoas" mastigam de maneira incorreta, fazendo simplesmente movimentos mandibulares descendentes e acendentes. então seguiu-se a reportagem e ela ensinou que o movimento correto da mastigação era o mesmo da vaca quando ruminava, movendo a mandibula primeiro para um lado e depois para o outro durante o movimento descendente até novamente morder o alimento. eu que comia qualquer coisa durante a reportagem tentei na mesma hora corrigir minha mastigação, o que me transportou a uma das minhas memórias de infância quando eu passava algumas horas de alguns dias observando as vacas "comerem".

nesse falshback eu não assistia a vaca e sim a mim mesmo fazendo aquele movimento estranho e ouvindo os estalos dos meus ossos enquanto eu ruminava a sobremesa. pensar em mim-vaca me levou a outra noção de realidade, me levou a uma cena num sopping center, na praça de alimentação e eu vi todas as pessoas ruminando seus fast-foods. as vacas pareceram por um momento tão felizes, porque as pessoas ruminando me fizeram ver que somos tão animais quanto a vaca (coisa que me esqueço com muita frequência), mas que ao contrário delas temos zilhões de coisas passando na cabeça, tantas sensações e sentimentos. pereceram todos estúpidos por pensarem tanto em tudo. porque não podemos ser simplesmente vacas ruminando nossa comida? porque temos que comer e pensar? porque temos que pensar até em parar de pensar e simplesmente ruminar. me senti uma vaca, uma vaca com crise existêncial.

22.3.09

velho mundo, mundo novo

estar de volta pro aconchego do lar foi estranho dessa vez. é como se o velho cheiro de casa minha entrasse diferente pelas narinas e produzisse uma sençação inesperada, o tempo pode passar em ritmos diferentes em países diferentes? certamente não, mas o fato é que o tempo é muito singular e individual, eu tenho certeza que o tempo que passei longe tem uma importância muito grande na minha vida e durou muito mais do que o calendário diz ter durado.

voar sobre meu porto alegre foi fantástico como nunca antes, ver aquela paisagem, os prédios, ruas, o trânsito, as pessoas, os lugarzinhos, me trazem cada minuto mais de volta ao meu mundo. mas o eu que pisa hoje nesse chão onde cresci e aprendi quase tudo que sei é muito diferente do eu que partiu a tão pouco e tanto tempo atrás!

viajar é um spray de pimenta nos olhos, cutucar a consciência com um alfinete, assistir a um filme sem sentido no volume máximo dentro de um quarto coberto de telas e interagir com os personagens, dormir em uma cama de pregos que não segue a distância mínima de separação pra garatir que eles não te furem, comer espetinho de grilos mal passados.

quando se sai desse turbilhão e volta-se ao seu, ao "seguro", tudo parece calmo e previsível demais e isso é bom e isso é ruim. a clareza com que é possível ver agora impressiona e facilita a movimentação. é como se eu estivesse em meio a um labirinto e por alguns minutos eu pudesse enxergar o caminho pra saída e pudesse escolher durante este trajeto os obstáculos que eu quero enfrentar e as armadilhas que eu devo evitar.

hoje a sala não é mais a mesma, apesar dos objetos estarem ainda nas mesmas posições existem detalhes que eu não via antes. esses detalhes acabam alterando o ambiente e eu consigo agora sentir melhor o que as cores querem me dizer, entendo o porque da posição do sofá e mesmo que a tevê não tenha o tamanho e nem a imagem ideal, a mensagem que ela me transmite é o mais importante. e poder entender a linguagem da sala me faz ver o que eu não via e sentir o que eu não sentia.

viajar é um intensivão de vida, onde se aprende a viver, a ver a vida que se tem e a escolher a vida que se quer.

14.3.09

voando

sensação estranha essa de estar voltando pra casa. agora que o cérebro estava tão aqui, tadinho. excesso de informações mais uma vez. usando a capacidade de adaptação na potência máxima nesses últimos meses vai acabar cansando e parando de funcionar!

não sei o que esperar, só chegando lá pra saber qual a sensação que essa volta pode produzir, porque agora, quando tudo ainda é futuro, me sinto bem em alguns momentos, me sinto triste de deixar tudo aqui em outros. viajar é sempre maravilhoso. pra quem tem espírito aventureiro e sede de novidades como eu é foda saber que vai levar um tempo pra que eu volte a seguir pra outro país e pra que eu bata de frente com outra cultura.

já sinto um vazio no peito, uma sensação de perda e ao mesmo tempo de vitória, conquista! sinto os últimos meses como se fossem anos, me sinto diferente sem nem saber em que sentido. olho no espelho e minha imagem me diz que a diferença é muito mais interna do que externa, mas vejo mais profundidade no olhar e a certeza da amplitude dessa mudança só vou saber quando pisar de novo na minha terrinha e ver as coisas com meus novos olhos.

que ansiedade de saber como meu corpo vai reagir. agora é pegar o avião e abrir a mente, sentir essa que deve ser uma das sensações mais inusitadas que se pode sentir. quero ver, ouvir, tocar tudo lá. me ver, me ouvir e me sentir lá! brasil, me aguarde! até breve!

12.3.09

preparar, apontar, fogo!

tequila e gosto ruim na boca, sim. mas assim eu posso escrever e ser feliz. ouço esse disco novo pensando que poderia soar como o antigo, e penso também na mala que já preciso começar a planejar, arranjar espaço para colocar as tralhas que trouxe e as tralhas que vou levar. penso no que vivo hoje e penso no que vou lembrar disso depois. é uma realidade que carece de cuidado e carinho, precisa-se de uma babysitter full time pra voltar pro caminho certo e que atualmente está se sentindo confusa e não sabe se a culpa é dela ou dos outros.

o que acontece quando se vai pra outro lugar é que se tem muitas sensações e visões do simples e do complexo. a percepção aguçada pela estranhesa das coisas desperta um senso de realidade difícil de se descrever, principalmente quando a música que eu gostava acabou. mas o sentimento maior que toma conta do meu peito agora é a confiança de que amadureci e aprendi muito. vai ser estranho voltar a ter dinheiro colorido e não ter pennys que só os americanos, com suas taxas que transformam os produtos em valores quebrados inacreditáveis, ainda acham necessário. acho que se juntar todas essas moedas de um cent posso comprar mais uma passagem pra wonderland!

eu não lembro mais como é o trânsito do brasil, estava pensando nas sinaleiras sem o sinal especial pra virar à esquerda e acabei chegando a conclusão de que o nosso trânsito é mais fácil, tudo bem que é sempre bom pegar a freeway pra chegar mais rápido no centro, mas e aí não se vê a cidade de perto, não se vê as pessoas. prefiro as sinaleiras e as pessoas. e as ruas?! aqui sempre tão retas e previsíveis, onde foram todas as curvas, será que quem planejou as cidades não pensou que às vezes uma curva faz bem, dá uma acordada e faz prestar mais atenção no que se está fazendo.

não sinto mais a comida apimentada, não sinto mais frio, não acho estranho falar inglês, não penso que o drive thru do banco é inútil, enfim, me acostumei com muitas coisas e sei que vou sentir falta de muito que eu vi e vivi aqui. outras referências e um contexto de vida mega diferente do brasileiro. mas a readaptação sem dúvida será muito fácil. minha terra, minha culltura, minha língua. pensar em pisar no brasil aquece e seduz. devo a essa experiência a minha nova noção de nacionalismo e minha certeza de que tenho muito orgulho de quem somos e de ter nascido brasileiro. sendo exposto a muitas situações que podem soar absurdas pra um americano, mas que formam pessoas extraordinárias, inteligentes e preparadas pra enfrentar a realidade.

é chegado o início de um novo tempo e nova era. o brasil nunca mais será o mesmo depois do que vivi, mas sem dúvida será sempre minha terrinha querida e por mais que existam lugares que me fizeram muito bem, sei mais do que nunca o valor de se estar em casa e perto de quem se ama. ok, i'm going to start packing!

5.3.09

beija eu

tic tac, tic tac
ai meu amor, o tempo não passa, falta fôlego pra correr mais rápido que o relógio. ontem eu tentei, mas me cansei e meu nariz sangrou. preferi optar pela rotina quebrada, mas planejada. tinha esquecido como é importante planejar, enfim, retomei. reformei o quarto, a sala e a lavanderia. sem falar do banheiro que já não se reconhece.

tic tac...
amanhã acordo cedo e preciso dormir antes que nem valha mais a pena deitar na cama. mudam os dias e mudam os cenários, mas cada vez menos tenho vontade de ir dormir, e quando durmo é cada vez mais difícil levantar. sou preguiço, confesso. mas não posso lutar contra minha natureza noturna que insiste em me deixar ligado na madrugada e quanto mais o relógio corre mais tesão e menos vontade de deitar, deitar até vai, mas não pra dormir. não agora.

o tempo vai e volta, quando eu acho que são quatro da manhã é apenas meia noite, ainda é tempo de dormir, mas o que eu quero mesmo é que o tempo passe pra que eu fique ainda mais próximo do fim e do reinício. início?

3.3.09

simpatia

eu vinha achando tudo lindo e maravilhoso, até chegar aqui. me sentia bem e confortável, tendo a sensação de que seria isso mesmo e que eu não precisava de mais, até chegar aqui. que lugar é esse? o que tem nesse ar? esse ar que entusiasma, cria sensações, diverte.

quando se está em um lugar estranho, seja outro país ou outra casa é normal existir um tempo para se adaptar e começar a se sentir parte do lugar, integrado de alguma forma ao cenário que está em volta. mas não aqui.

são francisco soa bem aos meus ouvidos faz muito tempo, mas mesmo com a quantidade de referências que se pode buscar na internet, livros, revistas eu não poderia imaginar que eu me sentiria tão em casa e tão bem acolhido por esse lugar. como é bom passear pela rua e ver alguém sorrindo sozinho, simplesmente por estar ali caminhano pela cidade que tanto ama e que exala bem estar e alegria.

sensações são únicas e cada um tem as suas obviamente, mas eu tenho a nítida impressão de que este lugar de alguma forma produz essa mesma sensação em um determinado tipo de pessoas. são francisco como disse um amigo parece acolher pessoas que não se encaixam em nenhum outro lugar, por diferentes motivos, e talvez seja essa mistura de pessoas, histórias e vidas que deixe a cidade ainda mais interessante. é um adicional a todas as belezas naturais e contruídas que existem aqui.

imprevisível são francisco, com todas as subidas e decidas não se pode saber muito bem quais surpresas vai se encontrar no caminho, mas a cada ladeira surgem novos detalhes, sensações e sempre uma paisagem fenomenal. cada cantinho parece ter uma história e cada lugar que se passa parece produzido pra encantar. triste é partir de um lugar onde se teve tantas experiências boas em tão pouco tempo. ficam pra trás vários momentos memoráveis e a sensação de que a missão aqui é muito maior e que ainda virão mais dias pra se viver frenética e calmamente na cidade mais interessante que eu já conheci (so far).

deixando san francisco
manhã 27 de fevereiro
so sad!

breathe

respirar aqui é mais fácil e saudável. a altitude cansa até mesmo os pulmõe mais jovens. recém chegado de viajem, depois de uma longa caminhada, a praia. tirei meu converse e minhas meias, dobrei a calça jeans até os joelhos e molhei meus pés nas águas nem tão geladas do pacífico. deiminui o som do ipod de leve e passei a escutar o mar, que faz o mesmo som aqui do outro lado do continente.

é impressionante a calma e a alegria que eu sinto só de estar aqui, sentir o sol quente no rosto, ver o mar de plano de fundo para a cabana do salva vidas, aquela mesma cabana que eu via nos filmes e na minha série favorita dos tempos de adolescência. os coqueiros, a arquitetura, as aves, conchinhas, tranquilidade e serenidade.

o tempo se torna quase irrelevante neste momento. não fosse a lembrança da data de volta e da passagem já comprada, eu poderia ficar aqui pra sempre, ou pelo menos por mais uma semana. mas eu sou maestro de mim e quem controla meu tempo sou eu. posso viver aqui um ano em apenas sete dias.


manhattan beach
23 de fevereiro 12:27
primeiras impressões californianas