14.2.09

entre agulhas e penas

gargarejo de aflição e angústia sobre meu próprio desejo ambíguo e narcisista. precisava do dinheiro e aqui estou. a sensação é engraçada, epaçada por apitos mecânicos. respiro com mais calma e presto atenção nesses malditos barulhos, porque a luz do “low” fica acesa de vez em quando? será que tem alguma coisa errada? prefiro que a fernanda se cale por um momento. na televisão mísseis e para quedas de emergência, no meu corpo agulha e sangue que se parte e se vai. máquina, anticoagulante, sangue. me conforto na cadeira e espero, momento de relaxar e de deixar voltar o que não lhes é útil. meu corpo recebe silencioso parte do que foi lhe tirado. me sinto sugado e frágil, mas ao mesmo tempo sei que vale o esforço. aqui o meu tempo é bem recompensado e se uns roubam e outros vendem o corpo pra ganhar dinheiro, eu prefiro vender uma parte do meu sangue que, espera-se, seja produzida novamente em menos de um dia.

a fernanda está depressiva hoje, versando sobre morte e seu cabelo com cortes ridículos, eu estou compreensivo e pensativo. pensando no que significa essa prostituição sanguínea na minha vida, pensando em como vou lembrar disso daqui a um tempo e dar risada. observo as pessoas passando na rua, nem parecem perceber o que acontece aqui dentro, o sinal fecha e os carros param e vão. o tempo corre mais rápido quando se lê poesia.

na cadeira do meu lado está uma senhora piadista, que parece não estar em momento algum sendo sugada pela máquina, pelo contrário, parece se alimentar da eletricidade e ficar cada vez mais agitada até que a língua não para e a cadeira já não parece ter mais posição nenhuma que seja confortável o suficiente pra ela, quando sai dali, sai apressada e contente. realmente ela deve se abastecer de alguma forma da energia da máquina. do meu outro lado o homem sentado parece sofrer do exato oposto da senhora elétrica, ele fala de tempos em tempos no telefone, mas fala tão baixo que é praticamente impossível de ouvir uma palavra que lhe sai da boca, leitura labial, impossível, ele também não mexe muito a boca pra falar. acho que a senhorinha pode ter sugado a energia do pobre coitado.

sinto a boia inflar e pressionar meu braço, hora de bombar a mão. a fernanda está no prédio mais alto de são paulo observando o suicídio de um pobre pássaro branco, que encharca suas penas brancas de sangue no asfalto. eu viajo pela rua, vejo a barraca de tacos onde os mexicanos conversam animados e a banca de revistas com cigarros e pornôs em promoção. vejo um carinha no telefone dando risada e meu sangue na mangueira, que cenas. penso na risada da enfermeira e na cantada que o colega de trabalho deu nela na frente dos pacientes. eles trabalham como se estivessem num escritório e nós fossemos os computadores, não ligam pra o que ouvimos ou deixamos de ouvir, a senhora elétrica parece conhecê-los bem e já conversa informalmente com eles, como vizinhos de muitos anos.

eu deixo eles de lado e vejo a fernanda retocando o batom e tendo uma noite de prazer com um ex-amor, depois do sexo acorda em meio aos cupins sem asas, que procurando alimento na casa antiga de madeira. eu procuro ver quanto tempo falta pra que minha sessão acabe e a máquina prontamente me avisa que eu estou pronto pra ir.

depois do processo final eu me levanto, coloco meu casaco, pego meu dinheiro e saio. o ar frio da rua me envolve o corpo e me sinto bem, dou uma risada da situação, pego o carro e sigo. ah vida.

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