20.2.09

dimensão x

sentimentalmente falando é difícil dizer o que eu sinto neste momento. fico pensando em quanto o aproveitar o momento pode ter significados diferente, e também que só estou pensando nisso pra justificar a realidade que não é a mais impolgante em alguns sentidos.

às vezes me sinto vivendo muitas realidades complicadas de se conciliar, sobrepostas em alguns momentos maravilhosamente bem, transformando a realidade numa dimensão inusitada, brilhosa e carismática, convidativa e interessante de se estar. mas tem outros momentos que simplesmente nada se encaixa e fica praticamente impossível de entender o significado da formatação das idéias e de tentar ouvir algum barulho e ver uma imagem focada.

viver num mundo que não é o seu insere uma série de barulhos ao seu dia que você definitivamente não consegue enxergar, imagens estranhas que soam inaudíveis, o tempo corre numa velocidade diferente, ainda mais quando se está alguns pés a mais de altitude. não dá pra saber muito bem se o seu cabelo está bagunçado corretamente ou se a camiseta combina com a meia!

pobre cérebro humano, apesar da capacidade de adaptar-se rapidamente as situações mais diversas, acaba se confundindo e misturando as coisas, trocando as línguas, os dias, pensando descordenadamente, acaba sentindo calor quando tem frio e achando que o dia está escuro demais para se dormir.

volto ao sentimento e compreendo que não devo pensar muito em pensar nem sentir muito o que estou sentindo agora, whatever, deixa que a ficha caia. é só dar tempo pros neurônios funcionarem e relaxar. se não for pra sentir nada também que seja um nada cheio de camadas confusas e palavras que não fazem sentido, porque aí pelo menos quando a ficha cair e não houver sentimento algum, gasta-se o tempo procurando um sentido pra essa confusão temporal e corporal.

17.2.09

holiday

hoje eu caminhei. caminhei até o sol se pôr no horizonte. caminhei até as nuvens da tempestade de neve cobrirem o céu azul pelo seu cinza esbranquiçado. caminhei até enjoar de caminhar, até a rua perder a graça. caminhei até onde ainda haviam novidades, até começar a chover.

na calçada havia aguá da neve derretida, entre a calçada e a rua: grama ou pedra. árvores secas de frio enfeitam a paisagem ao seu jeito. não se importam em não terem folhas coloridas ou flores e frutos, se bastam pelos seus galhos e conversam entre si pelas batidas deles.

a rua estava quase deserta em certos momentos, feriado também para os carros, e claro para os ônibus, ou melhor, para os motoristas. hoje é dia de caminhar, caminhar até enjoar, observar o que não pode ser observado pela janela do carro (ônibus).

hoje eu caminhei e não reclamei, caminhei e apreciei. olhei para a terra úmida e para a calçada rachada, vi o interior de muitas casas e as pessoas vivendo, vi aos outros e vi a mim mesmo. ouvi mesmo achando que não deveria ouvir e agradeci mesmo não tendo necessidade de agradecer. mas eu sou grato, por estar caminhando, observando, ouvindo e falando. então agradeci, e cantei e dancei.

14.2.09

entre agulhas e penas

gargarejo de aflição e angústia sobre meu próprio desejo ambíguo e narcisista. precisava do dinheiro e aqui estou. a sensação é engraçada, epaçada por apitos mecânicos. respiro com mais calma e presto atenção nesses malditos barulhos, porque a luz do “low” fica acesa de vez em quando? será que tem alguma coisa errada? prefiro que a fernanda se cale por um momento. na televisão mísseis e para quedas de emergência, no meu corpo agulha e sangue que se parte e se vai. máquina, anticoagulante, sangue. me conforto na cadeira e espero, momento de relaxar e de deixar voltar o que não lhes é útil. meu corpo recebe silencioso parte do que foi lhe tirado. me sinto sugado e frágil, mas ao mesmo tempo sei que vale o esforço. aqui o meu tempo é bem recompensado e se uns roubam e outros vendem o corpo pra ganhar dinheiro, eu prefiro vender uma parte do meu sangue que, espera-se, seja produzida novamente em menos de um dia.

a fernanda está depressiva hoje, versando sobre morte e seu cabelo com cortes ridículos, eu estou compreensivo e pensativo. pensando no que significa essa prostituição sanguínea na minha vida, pensando em como vou lembrar disso daqui a um tempo e dar risada. observo as pessoas passando na rua, nem parecem perceber o que acontece aqui dentro, o sinal fecha e os carros param e vão. o tempo corre mais rápido quando se lê poesia.

na cadeira do meu lado está uma senhora piadista, que parece não estar em momento algum sendo sugada pela máquina, pelo contrário, parece se alimentar da eletricidade e ficar cada vez mais agitada até que a língua não para e a cadeira já não parece ter mais posição nenhuma que seja confortável o suficiente pra ela, quando sai dali, sai apressada e contente. realmente ela deve se abastecer de alguma forma da energia da máquina. do meu outro lado o homem sentado parece sofrer do exato oposto da senhora elétrica, ele fala de tempos em tempos no telefone, mas fala tão baixo que é praticamente impossível de ouvir uma palavra que lhe sai da boca, leitura labial, impossível, ele também não mexe muito a boca pra falar. acho que a senhorinha pode ter sugado a energia do pobre coitado.

sinto a boia inflar e pressionar meu braço, hora de bombar a mão. a fernanda está no prédio mais alto de são paulo observando o suicídio de um pobre pássaro branco, que encharca suas penas brancas de sangue no asfalto. eu viajo pela rua, vejo a barraca de tacos onde os mexicanos conversam animados e a banca de revistas com cigarros e pornôs em promoção. vejo um carinha no telefone dando risada e meu sangue na mangueira, que cenas. penso na risada da enfermeira e na cantada que o colega de trabalho deu nela na frente dos pacientes. eles trabalham como se estivessem num escritório e nós fossemos os computadores, não ligam pra o que ouvimos ou deixamos de ouvir, a senhora elétrica parece conhecê-los bem e já conversa informalmente com eles, como vizinhos de muitos anos.

eu deixo eles de lado e vejo a fernanda retocando o batom e tendo uma noite de prazer com um ex-amor, depois do sexo acorda em meio aos cupins sem asas, que procurando alimento na casa antiga de madeira. eu procuro ver quanto tempo falta pra que minha sessão acabe e a máquina prontamente me avisa que eu estou pronto pra ir.

depois do processo final eu me levanto, coloco meu casaco, pego meu dinheiro e saio. o ar frio da rua me envolve o corpo e me sinto bem, dou uma risada da situação, pego o carro e sigo. ah vida.

9.2.09

o caminho


pra onde o caminho leva? são tantos os caminhos que perder o foco é comum, mais do que comum, difícil é ter foco e achar o caminho.

caminho certo? olha, deve existir.

deixar migalhas? dizem que o bom é sempre buscar caminhos novos e seguir em frente, e mesmo que se volte, provavelmente o caminho não será mais o mesmo, a chuva insiste em levar as migalhas, é provável que a chuva acredite na história de se buscar sempre o novo.

voltando ou seguindo em frente, mais importante que se saber o caminho por onde anda é saber o que se quer encontrar no caminho, e saber aproveitar as surpresas que sempre surgem, é nas surpresas que se pode aprender a dar valor ao que é realmente importante na vida.

o que é importante na vida? ...

sucessão do tempo

o tempo voa quando se vive
o tempo demora quando se espera
o tempo é relativo

quanto tempo hoje teve?
7 minutos?
7 horas?
7 dias?

depende...
depende.

6.2.09

ônibus torrada

hoje pela manhã quando acordei atrasado, me vesti, arrumei o cabelo e sai correndo de casa, sem escovar os dentes, com dois pedaços de pão torrados na mão, angustiado, achando que provavelmente o bus já era, pensei que eu poderia correr! correr e lembrar dessa corrida como uma metáfora absurda à minha vida.

sim, eu poderia ser o pão que não ficou o tempo necessário na torradeira e teve que mesmo assim ser bom e matar a minha fome, ou então meu cabelo que tentava ser algo que não era e decidiu ser ele mesmo, não ligando mais para os outros cabelos, ou o que esses pensaríam dele. eu poderia ser meus dentes, que nem sempre recebem o cuidado que merecem, mas são constantemente cobrados e exigidos pela brancura do comercial de pasta de dente e se frustram pois ainda precisam de muitas horas de colgate total 12 pra atingirem o primeiro quadrado de brancura da embalagem.

eu podia ser eu mesmo, nessa manhã gelada, da gelada salt lake city. desajeitado e cambaleando pra sair da cama. com cara de sono e boca cheia entrando no ônibus, comprimentando o cobrador mau humorado do primeiro horário. eu, eu mesmo, indo pro trabalho e vendo as pessoas a minha volta e tentando me imaginar no meio delas. a cena projetada na minha mente se parecia bastante com o filme da semana passada, ou de um ano atrás. aquele filme, o qual venho escrevendo o roteiro fazem mais de duas décadas e que ultimamente vem ganhando umas locações incríveis.

pode ser que essa cena atordoada e desfocada da manhã gelada, da torrada e do ônibus nem entre na edição final, mas essa imagem sendo registrada, esse flash contorcido faz sim parte do enredo e a figura do jovem e sua torrada, tentando atrapalhadamente colocar os fones de ouvido enquato come, pega a carteira e para o ônibus na parada branca de neve fará diferença no desenrolar da história, e cada passo dado, cada nova cena gravada, seja ela relevante ou não pra história final, faz mais sentido agora do que fez a dois meses atrás.

1.2.09

lição do dia

tá bom pra mim, sabe?! sim, meu sonho, um deles, mas também, não é tudo isso não. não epera muita coisa porque não é. eu acho que se tivesse vindo pra cá a algum tempo atrás, antes de conhcer quem eu conheço, antes de saber o que eu sei, fosse me encantar mais e querer ficar aqui como todos me diziam que eu me sentiria, pois é, eu mesmo cheguei a pensar nisso, mas estando aqui eu vejo onde estive e me sinto abençoado por ter meus amigos e minha família e valorizo cada vez mais tudo isso. um dos grandes motivos de ir se viajar é se dar conta disso mesmo, do que se tem ou do que não se tem na sua origem.

muitas das pessoas que viajam e não voltam são pessoas sem estrutura nenhuma, em todos os sentidos, e acabam por motivos diferentes percebendo que o melhor que tem a fazer é ficar se manter afastados de tudo aquilo que não tinham ou que não lhes fazia sentido. ir para um país de primeiro mundo pode encantar sim, pode fazer sentir bem, e faz, sem dúvida, quando se tem um emprego e uma vida nestes lugares pode se ter coisas que não são tão facilmente possíveis nos lugares de onde se veio. fugitivos de países em guerra, fugitivos de qualquer ambiente insalubre se facinam, mas esse não é o meu caso.

num primeiro momento é tudo ótimo, lindo e maravilhoso, num segundo as diferenças se ampliam e o corpo e a mente começam a se debater, como um peixe fora da água, falta ar. depois vem a hora de se dar conta de muitas coisas, se dar conta de que para ser um cidadão do mundo basta estar no mundo, em qualquer lugar dele. de se dar conta do que se tem, de aprender a dar valor, ainda mais, as pessoas e ao não material, minha viagem vem me ampliando a visão do que eu considero importante, seja certo ou erado e quanto mais eu vejo menos eu quero ver.

o preço a se pagar nem sempre vale o retorno, o material traz satisfação instantânea, o sentimental fica, mas que sentimento fica do material? nenhum. aprender e sentir é mais importante do que qualquer outra coisa, e é gratuito, pena que o que é de graça não atrai a todos, muitos preferem pagar pelo instantâneo e nem percebem o que perderam. paciência, cada um leva na vida a bagagem que lhe faz mais sentido, uns pagam excesso de bagagem, outros esquecem a mala e carregam mais bagagem do que se possa imaginar.