27.5.08
over
ontem eu li um anúncio no jornal digital que dizia que estavam contratando novas prostitutas brasileiras na república checa. deve ser mesmo interessante viajar e vender o corpo em algum boteco em qualquer lugar do mundo, mas de preferência na europa, receber o cachê em euro é outro nível. nível que as minhas meias que sumiram não poderão conhecer.
e eu volto para as meias desaparecidas, viajo à china e sempre acabo nas meias. que falta de imaginação. que falta de controle. insistir, insistir, insistir. eu insisto no mais difícil, eu crio barreiras para mim mesmo e não desisto enquanto não quebrá-las, ou enquanto elas não quebrarem a mim mesmo.
já sei que é inútil questionar, o fato é que se estava bom não está mais e vem a onda de novidades e vem a vontade de surfar e a onda quebra mas outra se aproxima.. ahhh...
mas, enfim, se estivesse num rio límpido e de águas claras estaria sonhando com a cachoeira mais próxima. assim no meu oceano particular pelo menos tenho a opção de ficar na arrebentação ou o navegar sem destino e me deixar levar.
3.5.08
ressaca dois
abriu os olhos como que se assustasse com a própria mente, era impossível que seu cérebro que lhe parecia tão sem vida, produzisse algo como aquilo. a fumaça ainda estava no ar a sua volta. passara quanto tempo desde o início daquilo? não saberia determinar com certeza, porém, ao que tudo indicava não fora muito, pois o cigarro ainda se mantinha aceso entre seus dedos e apenas apresentava alguns milímetros de brasas mais do que antes de tudo acontecer.
o presente lhe parecia distante agora, ainda estava se recuperando do susto, porque ele fizera aquilo? o animal não fizera nada de mais, nada que pudesse resultar naquilo. mas como pudera fazer qualquer coisa se permanecia sentado no mesmo lugar de antes de tudo acontecer, com a mesma roupa, meias e cigarro aceso?
três minutos atrás ele acabara seu sanduba noturno e sentara na antiga poltrona de couro de cabra que a muito havia ganhado de sua avó materna, a poltrona já aparentava ter duas vezes a idade do dono, surrada e fedida, mas sua favorita. na mesa de apoio pegou seu cigarro amassado e o fósforo, adorava sentir aquele cheiro de pólvora antes de fumar. lembrava o tempo em que fazia bombas caseiras com os amigos da rua, quando criança.
depois disso um emaranhado de luzes surgiu e, ele não conseguia se lembrar como, mas elas o tiraram de sua poltrona e levaram seu corpo além, levara um susto do som que seu corpo produzira entrando em contato com a terra úmida, recém molhada por uma notável pancada de chuva passageira, estava em algum lugar escuro e de difícil visualização, seus olhos falhavam ao tentarem enxergar alguma forma naquela imensidão escura. definitivamente algo estava errado e ele não entendia porque e como viera parar naquele lugar inóspito.
a escuridão arrepiava, dava uma sensação de insegurança como nunca pudera imaginar sentir em toda sua vida. era pior que qualquer coisa. porque estava sentindo aquilo? sua respiração sobrepunha o que parecia um barulho de vegetação sendo agitada por vento, vento que não podia sentir, apenas ouvir. tentou caminhar, erguia suas mãos a frente do corpo tentando tocar em algo, porém sentia apenas o vazio. teria ficado cego? mas onde estava sua mobília? se estivesse em casa poderia se mover perfeitamente sem ver, e sentiria o cheiro do seu lar e os barulhos comuns de geladeira que tanto o irritavam.
os sons que ele ouvia pareciam se modificar aos poucos, aumentando e diminuindo, como se misturasse a vegetação agitada com passos, mas nem de longe nenhum dos barulhos se pareciam com o da geladeira. ele tentou se manter calmo, nem que por um segundo, tentou fechar e abrir os olhos, esfregou com força suas pálpebras, não adiantava, sem sucesso. respirou mais fundo. pensou no sol, na luz do abajur, em fogo.
fogo! o que tinha sido aquilo? fogo?
uma claridade surgiu ao horizonte, se é que se poderia chamar aquilo de horizonte, parecia uma chama alaranjada, ele correu e percebeu que ela não se aproximava, e ele corria e o ambiente a sua volta continuava estático, se virasse a cabeça a chama acompanhava o olhar, como se estivesse grudada a sua retina, piscou e a chama sumiu, assim como surgira agora tinha se apagado. ele pensou novamente na claridade, no sol, no fogo.
sim, e novamente surgiu a sua frente uma chama, desta vez mais robusta e ameaçadora, pode sentir o calor do fogo na sua face, fez lacrimejar os olhos. o fogo pareceu se alastrar e agora formava um círculo ao seu redor, num esforço que lhe causou enjôos tentou sair dali, mas o fogo se intensificou. se atravessasse o fogo provavelmente estaria morto, mas aquilo tudo não podia ser real, não era lógico. então ele pulou, correu em círculos menores que o que o cercava, gritou, deitou no chão e chorou.
ao abrir novamente os olhos estava fora do círculo de fogo. podia ver em sua volta uma vegetação média com uma mata fechada iniciando logo mais a frente, estava em uma clareira e o fogo aumentava cada vez mais, ao se concentrar e encarar o fogo ele pode ver que dentro do círculo havia alguma coisa se movimentando, e a coisa se movia rapidamente, tentava escapar do fogo como ele próprio fizera, porém o círculo estava totalmente fechado, não deixando brecha para qualquer possibilidade de fuga. ele se aproximou um pouco mais do fogo e percebeu que era um cachorro que estava preso. ele demorou alguns segundos para identificar aquele que era, não sabia como, seu primeiro animal de estimação, o cachorrinho que ganhara no seu primeiro aniversário e que o acompanhara até seus quinze anos, quando teve uma doença grave e degenerativa e morreu.
como poderia estar ali envolto naquele círculo o seu estimado animal-companheiro? ele percebera que agora seu olfato voltava e que o cheiro no ar era o de pólvora. alguém armara aquela armadilha para seu bichinho, prenderam ele e agora estavam tentando colocar-lhe fogo vivo, que judiaria. começou rapidamente a pensar em alguma solução, pois de alguma maneira teria que tirar seu companheiro daquela situação.
se deu conta de que quando pensara no fogo este surgiu, então sem hesitar pensou na escuridão, em água, em terra, mas nada apagava o fogo. ele mesmo havia iniciado aquilo? ele estava queimando seu próprio animal, como quem incinera papéis antigos ou diários que contenham assuntos dos quais não se queira lembrar? sofrera muito ao perder seu companheiro na primeira vez, não suportaria passar por tudo aquilo novamente, estava tão perto e teria que fazer alguma coisa para evitar esta tragédia.
jogou-se em direção das chamas, talvez se fosse muito rápido daria tempo e ambos saíssem com vida. sentiu o fogo queimando suas roupas e o calor consumindo sua pele de maneira brutal, o calor era extremo, dificilmente sobreviveriam. quando finalmente atravessara a parede densa e chegou ao centro do círculo que se encontrara a minutos atrás, não estava mais ali o seu amigo, sumira, desintegrara-se junto com o fogo e a escuridão. a fumaça ainda o circulava e o cigarro recém aceso permanecia em suas mãos. a geladeira voltara a lhe incomodar os ouvidos e a poltrona de couro lhe parecia mais confortável do que nunca.